FLIP Festa Literária Internacional de Paraty 2008

Dias que faltam para o início da FLIP. Começa em 02/07/2008

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Teu rastro a chuva lavou do chão




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Música Latina - Algumas




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Grandes Sambas-Enredo Coletânea 4 - Paulo César Pinheiro




Grandes Sambas-Enredo Coletânea 3




Grandes Sambas-Enredo Coletânea 2




Grandes Sambas-Enredo Coletânea 1




Mais um pouco de Blues




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Um pouco de música





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O cego que colava.

Em nossas vidas passamos por vários momentos constrangedores. Alguns constrangimentos podem ter o mesmo efeito que o afundamento do Titanic, ou seja, uma tragédia e outros podem até passar despercebidos para as outras pessoas, mas para nós, vira e mexe, ressurgem na memória e ficamos pensando em “como é que paguei aquele mico”?. Ainda na ordem das proporções, o mico pode se transformar num King Kong se, por exemplo, você estiver torcendo pelo Vasco na torcida do Flamengo e resolver comemorar um gol do Vasco.

Digamos que eu já tenha experimentado algo parecido, quando na decisão do campeonato brasileiro de 1980, eu, botafoguense de quatro costados, um vascaíno cuja família desembarcou aqui junto com o Cabral e um flamenguista, que por ser muito amigo nosso nos pediu para assistir a peleja entre o Atlético Mineiro (a camisa é parecida com a do Botafogo) e o dito Império do Mal, vulgo Flamengo, no meio das hostes do nefando império. A cada gol do Atlético eu e o vascaíno pulávamos e antes de tocar os pés de volta na arquibancada, já começávamos a gritar palavrões para disfarçar a alegria de ver o Flamengo levar um gol. Era mais ou menos assim: A torcida do Império do Mal berrando... “BICHADO, BICHADO, BICHADO” para o Reinaldo e ele fazendo gols. A cada gol (foram dois), um pulo e... “PQP!!! QUE M*.*RDA!!! OUTRO GOL!!!”, mas com um sorriso. Bom, infelizmente o lado negro da Força venceu a partida e conquistou o campeonato.

Agora, constrangimento daqueles bem engraçados quem sofreu foi um colega de turma na faculdade, o Genival (troquei o nome por motivos óbvios). Faz um tempo que não o encontro. O Genival é cego e, acreditem, colava pra caramba nas provas. O quê? Não acredita? Não se esqueça que tudo nesta vida, exceto a morte e baton na cueca, tem jeito de se contornar. A curiosidade aguçou, né? Querem saber como ele fazia pra colar? É bem simples.

Primeiro é preciso dizer que o Genival conseguia escrever tão rápido em Braile quanto nós em letra cursiva. O professor fazendo a explanação da aula e ele no “pléc, pléc, pléc, pléc”, ao usar um estilete para perfurar folhas de papel pardo. Impressionante como ele conseguia fazer. O caderno do Genival era uma moldura de alumínio na qual ele encaixava uma folha de papel pardo por vez e uma régua com duas fileiras horizontais de pequenos quadrados vazados, que colocava sobre a folha. O estilete parecia um daquelas chaves de fenda pequenas e cabia na palma da mão. A aula rolando e o Genival... “pléc, pléc, pléc, pléc”.

Em dia de prova ele era obrigado a levar alguém para escrever as respostas no papel da prova, pois os professores não sabiam ler Braile. Então, a cada pergunta que ele deveria responder, a resposta era ditada pelo Genival para a sua “secretária”. O que ninguém desconfiava e nem imaginava é que ele desenvolvera um método de cola. Como desconfiar que um cego vá colar numa prova? Seria um quase pecado, não?

Genival e a secretária sentados coladinhos e professor entregando as provas, que geralmente eram folhas de papel almaço em branco com o logotipo da Universidade e as questão vinham numa folha xerocada ou mimeografada. As questão eram extensas e demandariam um certo tempo para serem respondidas. A posição em que eles, Genival e secretária ficavam era como se estivessem fofocando. Um do ladinho do outro e sussurrando as respostas.

Um professor, não sei porque, resolveu prestar atenção e aí se deu kingkoniano constrangimento. Ele, Genival, preparava cola em Braile antes das provas. Coisa do tipo resumão, mais ou menos adivinhando o que cairia nas provas. A menina fazia a leitura da pergunta e ele, já com as folhas de papel pardo sob a pasta, que ficava em seu colo, corria os dedos pela cola e cantava as respostas para ela. Ele fez isto durante várias e várias provas. Até que este professor, por um ato digamos de sorte ou azar dependendo do ponto de vista tomou-lhe a cola e a prova e disse: Genival, até tu meu filho, colando?

Agora, Jeff Healey, um guitarrista cego canadense interpretando Stuck in the middle with you.


Querelas do Brasil

Houve uma época em nossa história do século XX em que o governo central exigia que os enredos e sambas-enredo fossem ligados à nossa história. Isto foi instituído pela ditadura do primeiro período Vargas e perdurou até meados dos anos 1980. Até aí tudo bem, pois não dá pra imaginar certos delírios de carnavalescos que resolvem falar sobre a Corte de Assurbanípal em sua viagem fantástica ao fáustico Reino das Gnomas Encantadas. Um verdadeiro samba do crioulo doido mesmo. Coisa de... Bem, vocês sabem o resto da frase.

Ao mesmo tempo em que isto era instituído, outros compositores se esmeravam em cantar as maravilhas do Brasil. Exemplos não faltam, sendo que o maior de todos é a Aquarela do Brasil. Por sinal, uma belíssima melodia que toca lá fora direto. Os gringos se amarram. A este tipo de música, quando se trata de samba, dá-se o nome de Samba-Exaltação. Devemos entender que era uma época em deixávamos, um pouco é verdade, de sermos um país agrário-exportador e começamos um processo de industrialização e urbanização. Tudo por conta do ufanismo do já citado presidente-ditador Getúlio Vargas (1930/1945).

Não, não é pejorativo. É apenas um momento em que cantávamos nosso país, que nos descobríamos, que nos consumíamos antropofagicamente. Vejamos alguns exemplos...

Assis Valente - Brasil Pandeiro (Gravação dos Novos Baianos)



Chegou a hora dessa gente bronzeada
Mostrar seu valor
Eu fui a Penha e pedi a padroeira
Para me ajudar
Salve o Morro do Vintém
Pendura a Saia que eu quero ver
O Tio Sam tocar pandeiro
Para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo
Conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana
Melhorou seu prato
Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará,
Na Casa Branca já dançou a batucada
Com Ioiô e Iaiá...
Brasil, Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
Há quem sambe diferente
Noutras terras, outra gente
Num batuque de matar,...oi,
Batucada reuni vossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressões que não tem par
Oh! Meu Brasil,
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar

Aquarela do Brasil
Letra e música: Ary Barroso
Gravação de Aloysio de Oliveira para o filme "Você Já Foi à Bahia" de Walt Disney.
Pato Donald encontrando Zé Carioca.




Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do serrado
Bota o Rei-Congo no congado
Brasil, prá mim
Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Brasil, terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Esse coqueiro que dá côco
Onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, prá mim
Ah ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, prá mim, prá mim, Brasil
Brasil, prá mim, prá mim, Brasil
Brasil, prá mim, prá mim quarela do Brasil

Canta Brasil
Letra e música: David Nasser; Alcir Pires Vermelho
Gravação de João Gilberto



As selvas te deram nas noites
teus ritmos bárbaros
e os negros trouxeram de longe
reservas de pranto
os brancos falaram de amor
em suas canções
e dessa mistura de vozes
nasceu o teu canto
Brasil
minha voz enternecida
já adorou os teus brasões
na expressão mais comovida
das mais ardentes canções
também na beleza desse céu
onde o azul é mais azul
na aquarela do Brasil
eu cantei de Norte a Sul
mas agora o teu cantor
meu Brasil quero escutar
nas preces da sertaneja
nas ondas do rio mar
Ó esse rio turbilhão
entre selvas de rojão
continente a caminhar
no céu, no mar, na terra
Canta Brasil

E na década de 1980, em plena ditadura militar, quando o Brasil já estava mais para sigla do que para nome de país. Ah, sim. Isto é uma piada na qual diz-se que a palavra BRASIL significa Bravos Rapazes Americanos Silenciosamente Irão Levando (nossas riquezas). Bem, retomando o assunto, o Aldir Blanc de forma genial escreveu a letra de Querelas do Brasil, com música de Maurício Tapajós e fomos brindados com esta gravação magistral de Elis Regina. Aproveitem



O Brasil não conhece o Brazil
O Brazil nunca foi o Brasil

Tapir, jabuti, liana, alamanda, alialaúde
Piau, ururau, aquiataúde
Piá, carioca, moreca, meganha
Jobim akarore e jobim açu
Oh, oh, oh

Pererê, camará, gororó, olererê
Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazil não merece o Brasil
O Brazil ta matando o Brasil

Gereba, saci, caandra
Descunhas, ariranha, aranha
Sertões, guimarães, bachianas, águas
E marionaíma, ariraribóia,
Na aura das mãos do jobim açu
Oh, oh, oh

Gererê, sarará, cururu, olerê
Blá blá blá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SoS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri
O Jobim, sabiá, bem-te-vi
Cabuçu, Cordovil, Cachambi
Madureira, Olaria e Bangu
Cascadura, Água Santa, Acarí, Olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, Olará

Do Brasil SoS ao Brasil
Do Brasil SoS ao Brasil

Eu escreveria uma poesia

Eu escreveria uma poesia
Se hoje não fosse um daqueles dias
Que em vez de estar com a macaca, como gostaria,
Macacos me deram bom-dia

Tento pensar em algo para escrever
Olho para as teclas e elas me dizem que não faço por merecer,
Dos meus dedos
algo de significativo a dizer.
Assim, a tecla que mais uso é a de retroceder

Por que apago as palavras,
Que hoje me parecem ingratas
Quando antes pensava que eram inatas
Sensação que o leite azedou e se perdeu a nata

Um dia ainda consigo
Voltar a ficar bem comigo
E sem imaginar qual perigo
Escreverei a todos:
Entendam tudo que eu digo!
(J.A.2005)